“FÉ E SUAS ORIGENS”
Fé é uma força capaz de “jogar montanhas ao mar”, disse Jesus. Se o seu coração não duvidar e você crer, isso vai acontecer (Marcos 11.22). De onde vem essa força? Há pessoas que argumentam que ela vem do próprio ser humano, do seu pensamento criativo e da sua confiança na tecnologia. Outras defendem que se trata de um pensamento positivo, de manter uma postura otimista em relação à vida e seus acontecimentos. Também há as que acreditam que fé é uma força da mente. Basta mentalizar e manter o foco que os sonhos se realizam.
É certo que já podemos fazer coisas fantásticas com o conhecimento que alcançamos. Com a tecnologia que temos podemos até “jogar montanhas ao mar” ou formar uma montanha onde não havia nenhuma. Grandes obras da engenharia humana, antigas e modernas, dão-nos testemunho disso. Na área de gestão, podemos planejar, manter o foco e fazer com que todo nosso trabalho seja mais eficiente e contribua para alcançarmos os objetivos planejados. Encarar a vida de maneira positiva pode ser muito importante para vencer as dúvidas e o pessimismo na realização de nossos sonhos. Os seres humanos não poderiam viver sem um mínimo de confiança e esperança em suas capacidades e tecnologias.
Mas, será somente isto fé: confiar em nossa própria capacidade de realizações? Parece muito pouco. A fé ficaria limitada ao volume do nosso conhecimento, da nossa técnica e dos nossos recursos de gestão. O pensamento positivo e a mentalização também têm os seus limites. Nem todo otimismo e nem toda força mental resistem às experiências de perdas, de fracassos, de desilusões e de depressões que experimentamos na vida. Fora desses limites não haveria nenhuma esperança. Nas palavras do apóstolo Paulo, “se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo.” (1 Coríntios 13.19)Tudo isso é muito pouco para definir o que é fé. É preciso ir além. O pai da fé, Abraão, creu contra toda esperança (Romanos 4.18). O que significa isso?
Quando Jesus se refere à fé, está falando de uma força que nos sustenta e nos carrega para além de nossas capacidades. Ela ultrapassa os nossos limites. Conforme Hebreus 11.1: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem.” É uma “convicção” e uma “certeza” para além daquilo que vemos, conhecemos e controlamos. Sendo assim, sua fonte não está localizada em nós. A fé de caráter religioso é uma força que vem de fora. É fruto da manifestação do transcendente no meio da nossa realidade. Uma semente colocada no chão de nossas vidas por mãos que não são as nossas: Deus. A fé da qual Jesus fala amplia e dá maior qualidade aos nossos horizontes de esperança.
Os relatos bíblicos nos dão conta de que não é o ser humano, mas Deus, que está no centro da história. A fé, no primeiro testamento, origina-se de um poder que age na história, ao lado de gente escravizada e sofrida: “Então oramos, pedindo socorro ao Senhor, o Deus dos nossos antepassados. Ele nos atendeu e viu a nossa aflição, a nossa miséria e como éramos perseguidos. Com a sua força e com o seu poder ele fez milagres, maravilhas e coisas espantosas, e nos tirou do Egito...” (Deuteronômio 26.7-8) Ora, entre os antepassados dessa gente estava Abraão, o “pai da fé”. Abraão creu em Deus, na sua promessa de fazer dele uma grande nação, e por isso o Senhor o aceitou. (Gênesis 15.6) Fé é resposta às promessas de Deus. É uma entrega confiante de que Deus pode realizar o que para nós é impossível (Mateus 19.26). “Eu, porém, confiarei em ti.” (Salmo 55.23)
No segundo testamento, fé continua tendo sua origem na ação do próprio Deus: “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus” (Efésios 2.8). Jesus aparece como um “novo Moisés”, trazendo promessas da parte de Deus: “Ele dizia: — Chegou a hora, e o Reino de Deus está perto. Arrependam-se dos seus pecados e creiam no evangelho.” (Marcos 1.15) Os milagres, as maravilhas e as coisas espantosas carecem da fé: “— Minha filha, você sarou porque teve fé. Vá em paz; você está livre do seu sofrimento.” (Marcos 5.34) Sem ela não alcançamos o que esperamos.
Igreja não é uma fábrica que produz fé, mas é uma ferramenta nas mãos de Deus para preparar o solo e lançar a semente (Marcos 4.26-29). Enquanto o agricultor dorme, a semente cresce! O ambiente de convívio e de aprendizagem de uma Comunidade facilita o despertamento da fé: “Portanto, a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo” (Romanos 10.17).Os discípulos de Jesus receberam a tarefa de anunciar às pessoas as promessas de Deus contidas na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. São elas que despertam, pela graça de Deus, a fé cristã, a confiança de que tudo pode ser diferente em nossas vidas. Deus pode, se for da sua vontade, conduzir-nos para bem mais longe do que podemos imaginar.
Como vimos, fé é dádiva e fruto da ação de Deus em nós e no mundo. Quando ela é autêntica, não se deixa usar apenas para a realização de propósitos individuais. Pelo contrário, ela nos convida a olharmos, com amor, o próximo e toda a criação de Deus. Ela abre os nossos olhos para as necessidades e sonhos coletivos. Compromete-nos com a promoção e preservação da vida em sua totalidade. A oração do Pai Nosso é no plural! Depois de pedirmos por nossas necessidades coletivas, dizemos todos juntos: “Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu!”
Por fim, vale um alerta: “Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta.” (Tiago 2.17) Fé não é apenas um sentimento e uma convicção interior. É mais do que isso. Ela leva a um novo modo de vida, a um novo jeito de ser e de viver. Fé muda comportamentos. Compromete as pessoas com causas que promovem a qualidade de vida. Torna-se ativa no amor.
Pastor Luis Henrique Sievers
Pastorado escolar CSGA